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COMPANHIAS INVESTEM PARA RECICLAR PNEUS
Uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que obriga as produtoras e importadoras a destruírem pneus velhos está incentivando investimentos em torno de US$ 50 milhões em diferentes tipos de negócios, aplicações e tecnologias. Segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), para se adequar a resolução seu associados teriam que reciclar ou destruir este ano cerca de 7,5 milhões de pneus. Isto está atraindo a atenção de vários grupos de diferentes tamanhos para a destinação final do material.
Os interessados incluem grandes cimenteiras, produtores de óleo e gás, fabricantes de asfalto, reformadores de pneumáticos e produtores de artefatos de borracha, dentre outros. Pequenas empresas que picotam o pneu velho também se proliferam pelo país.
Para atender a resolução do Conama as fabricantes de pneus no país resolveram se unir na Anip para estruturar seu sistema de coleta e destruição dos produtos. O processo vai começar no revendedor, que será o responsável por convencer o consumidor que trocar seus pneus a deixar os velhos já na loja para serem posteriormente destruídos. A Associação firmou uma parceria com a Cimenteira Cimpor para que os pneus de seus associados sejam destruídos numa operação de coprocessamento na fabricação do cimento, onde o pneu é utilizado como combustível do forno e suas cinzas e seus componentes são agregados ao cimento.
A importadora Jabur Pneus adotou um sistema parecido para cumprir sua meta. Suas filiais vão ser responsáveis pelo recolhimento dos produtos quando o consumidor realizar a troca dos pneus velhos por novos. Como este ainda é um mercado muito novo, a Jabur teve que formar seu próprio fornecedor. A empresa se associou a um funcionário para montar a TDF, responsável pelo transporte e picotagem dos pneus. A recicladora está recebendo investimentos em torno de US$ 1,5 milhão para ter uma capacidade de processar mil toneladas de pneus por mês, que são destruídas nos fornos de cimento da Votorantim, em Rio Branco do Sul (PR).
Claudio Lebois, sócio-gerente da TDF, afirmou que a Jabur precisa descartar este ano 3 mil toneladas de pneus, enquanto as partes envolvidas estão trabalhando em um ritmo de 6 mil toneladas, antecipando em um ano a meta estipulada pela resolução. O coprocessamento é a forma mais utilizada de destruição de pneus, mas não é a única.
A Petrosix, uma subsidiária da Petrobras, está usando pneus velhos para a produção de óleo, gás e enxofre. Fernando José da Silva, técnico da Petrosix, explica que a empresa mistura 5% de pneus picotados a 95% de xisto betuminoso em seu processo de pirólise, que resulta em derivados de petróleo. A cada 100 quilos de pneus a produtora consegue extrair 50 quilos de óleo. Hoje, a unidade de São Mateus do Sul (PR) processa cerca de 25 mil toneladas de pneus por ano, mas um investimento em torno de US$ 1 milhão deve aumentar a capacidade para 135 mil toneladas. O sistema da Petrosix também é uma vantagem para as produtoras de pneus, já que enquanto a subsidiária cobra R$ 50 pela destruição de 1 tonelada de pneus, as cimenteiras cobram cerca de US$ 100.
Os pneus utilizados pela Petrosix são picotados previamente pela BS Colway, fabricante de pneus remold. A BS importa carcaças da Europa para reformá-las no país e recolocá-las no mercado. Para se adequar a resolução sobre destinação final, a companhia montou um sistema de coleta de pneus no Paraná, que são destruídos.
João Resende, diretor da BS Colway, diz que não utiliza carcaças brasileiras em virtude da baixa qualidade dos pneus fabricados no país. Porém, a empresa pode enfrentar um problema jurídico em um futuro próximo, já que o Ibama afirma que a importação de carcaças está proibida no país. Enquanto a briga na Justiça não tem uma definição, a BS continua trabalhando. A companhia deve coletar este ano cerca de 15 mil toneladas de pneus para poder importar outras 60 mil toneladas. Para isso foi necessário um investimento de US$ 10 milhões no negócio de reforma e reciclagem de pneus. Agora a companhia estuda também transformar o pneu em pó para fabricar artefatos de borracha. Ademar do Valle, diretor executivo da Associação das Empresas Reformadoras de Pneus do Estado de São Paulo (Aresp), estima que atualmente mil reformadores atuem em todo o país, movimentando R$ 600 milhões. Mas esse mercado deve inicialmente ser prejudicado pela resolução, já que as produtoras tem mais interesse em destruir o pneu para poder fabricar um novo do que reformar o velho, já que a reforma não é considerada uma destinação final.
Outra alternativa para a destruição dos pneus é a incorporação no asfalto. A Midas está investindo US$ 7 milhões para montar sua fábrica em Itupeva (SP), onde a principal destinação será a produção de emulsão asfáltica. A empresa desenvolveu uma tecnologia para separar os componentes do pneu. O aço é vendido para siderúrgicas, enquanto a borracha está sendo estocada esperando que a usina de asfalto entre em operação no fim do mês. "A vantagem do asfalto com borracha é que ele fica mais flexível e menos quebradiço, tendo uma qualidade superior ao asfalto comum", diz Adriano Rosa, gerente da Midas. A borracha, que será transformada em pó, também deve ser transformada em sola de sapato e artefatos de borracha, como tapetes de carros. A empresa deve processar 20 mil toneladas de pneus por ano.
Desde o início de 2002 está em vigor a resolução 258 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que obriga as empresas produtoras ou importadoras de pneumáticos a dar uma destinação final ambientalmente correta a pneus velhos de automóveis, caminhões, motos e bicicletas.
De acordo com a resolução, em 2002, para cada quatro pneus fabricados no país ou trazidos do exterior, inclusive os que acompanham veículos importados, as produtoras ou importadoras deverão reciclar ou destruir um pneu inservível. A resolução é progressiva e em 2003, metade dos pneus produzidos ou importados terão que ter destinação final. Em 2004, todo pneu novo vendido no país exigirá a destruição de um pneu velho. Por fim, em 2005, a cada quatro novos, os fabricantes e importadores terão que destruir ou reciclar cinco unidades. A norma será reavaliada após cinco anos de vigência. A reciclagem ou destruição deverá ser realizada por empresas credenciadas por órgãos ambientais estaduais. Essas empresas vão emitir um atestado de destinação final correta dos pneus, que será repassado para que as produtoras e importadoras comprovem que estão cumprindo a resolução. As importadoras serão obrigadas a comprovar a destinação final dos pneus antes do embarque dos produtos, para que suas remessas possam entrar no país. Já as produtoras deverão apresentar um balanço anual de suas atividades. As empresas que não cumprirem as quotas estarão sujeitas as penas previstas na Lei de Crime Ambiental.
O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) será o responsável pela implantação e fiscalização do processo. Cimenteiras substituem insumos e tornam resíduo numa fonte de renda De São Paulo A reciclagem de pneus está estimulando o crescimento de um outro negócio: o co-processamento de resíduos. Cimenteiras como Lafarge, Holcim, Votorantim e Cimpor estão investindo para se adaptar e utilizar resíduos, o que inclui pneus velhos, como combustível para seus alto-fornos. "No mundo todo o maior destruidor de pneus velhos é a indústria cimenteira", diz Francisco Leme, diretor de meio ambiente da Lafarge. O executivo estudou o caso de vários outros países e verificou que os fornos de cimento são responsáveis pela destinação de 25% dos pneus. De acordo com o executivo, a vantagem do coprocessamento é que o pneu substitui o consumo de recursos naturais, como o coque, utilizado nos fornos de cimento.
Por outro lado, o pneu é totalmente aproveitado, já que o ferro usado no pneu substitui a adição do metal necessária para a fabricação do cimento. Além de obter aproveitamento total em seu processo produtivo, as cimenteiras ainda ganham com a cobrança em torno de US$ 100 pela destruição de cada tonelada de pneus. Posteriormente, essas companhias emitem um certificado de destruição para que seus clientes possam apresentar aos órgãos ambientais.
Se as regras do governo para a destinação final de pneus forem implantadas a risca, Leme estima que esse mercado tem potencial para movimentar já este ano US$ 12 milhões, chegando a US$ 60 milhões em 2005, quando 600 mil toneladas de pneus teriam que ser coprocessadas. De olho no potencial deste mercado, a Lafarge tem planos de investir US$ 9 milhões em três anos para adequar todas as suas fábricas para a queima do pneu.
Atualmente, a companhia já está realizando o coprocessamento na unidade de Canta Galo (RJ), onde deve consumir este ano cerca de 6 mil toneladas de pneus, ou 1,2 milhão de unidades. Essa unidade utiliza apenas pneus picotados. No início de 2003, a Lafarge deve concluir a adaptação de sua fábrica em Arcos (MG) para receber pneus inteiros em seus fornos. A cimenteira tem ainda mais quatro fábricas que também serão adaptadas para a queima de pneus picotados junto com outros resíduos. Em cada unidade deve ser investido US$ 1,5 milhão. O objetivo é coprocessar anualmente 120 mil toneladas de resíduos a partir de 2005. A Holcim também está acreditando no mercado de resíduos. A empresa investiu US$ 14 milhões na Resotec, sua subsidiária no setor de coprocessamento, para a construção de dois centros de beneficiamento de resíduos para serem queimados nos fornos das unidades de Canta Galo (RJ) e Pedro Leopoldo e Barroso (MG).
Segundo Carlos Ávila, gerente geral da Resotec, cada centro tem capacidade para beneficiar 160 mil toneladas de resíduos, mas este ano a empresa deve coprocessar apenas 75 mil toneladas. Por enquanto, muito pouco ainda é composto por pneus. Para Ávila é uma questão de mercado: "a demanda por destruição tem aumentado muito, o que torna o custo um problema para a indústria de pneus". Para tentar diminuir esses custos a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), resolveu buscar uma parceria no setor. A representante das produtoras de pneus no país fechou um contrato com a Cimpor se responsabilizando pela entrega mensal de mil toneladas de pneus por mês. O produto segue para a usina de picotagem da Cimpor em Jundiaí (SP) e depois e distribuído pelos fornos da cimenteira no país. O mesmo tipo de associação foi feito entre a importadora Jabur Pneus e a Cimento Rio Branco, do grupo Votorantim. Os fornos da cimenteira tem capacidade para coprocessar 500 toneladas de pneus mensalmente, que são picotados pela TDF.
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